Geotecnia, mudanças climáticas, eventos extremos, inteligência artificial e monitoramento em tempo real estão entre os temas que mais vêm transformando a engenharia geotécnica nos últimos anos.
A necessidade de compreender o comportamento dos terrenos diante de chuvas intensas, processos erosivos, ocupação urbana e novas demandas de infraestrutura ampliou o papel da geologia dentro dos projetos geotécnicos e das estratégias de prevenção de desastres.
Para a professora titular do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria Giovana Parisi, o futuro da geotécnica exige não apenas avanço tecnológico, mas também responsabilidade social, planejamento e compreensão mais profunda dos territórios.
“Quando olho para o futuro da engenharia geotécnica, considero que as transformações mais relevantes não serão apenas tecnológicas, mas também éticas, sociais e ambientais”, afirma.

Segundo a pesquisadora, a geotecnia e mudanças climáticas, assim como os eventos extremos, tendem a ampliar os desafios relacionados à ocupação urbana, à estabilidade de encostas e à segurança de áreas vulneráveis.
“Os eventos extremos são importantes desencadeadores de processos que ameaçam populações vulneráveis. Nesse contexto, torna-se cada vez mais evidente o papel da Geologia nas ações de prevenção, previsão e mitigação de desastres associados às mudanças climáticas”, destaca.
Ela explica que os territórios respondem de formas diferentes às intervenções humanas e às solicitações de engenharia, dependendo das características dos solos, rochas e relevos.
Diante de chuvas intensas e outros eventos extremos, essas condições podem favorecer a ocorrência de:
- escorregamentos
- recalques
- corridas de lama
- erosões
- inundações
Por isso, o planejamento territorial e os projetos geotécnicos dependem diretamente da compreensão geológica das áreas analisadas.
Monitoramento geotécnico e novas tecnologias
A integração entre geologia, geotecnia, monitoramento e tecnologia também aparece como um dos principais movimentos da área.
Nos últimos anos, o avanço de softwares especializados, sensoriamento remoto, VANTs, equipamentos de medição in situ e sistemas de monitoramento em tempo real ampliou significativamente a capacidade de análise e prevenção de riscos geotécnicos.
“A integração entre geologia, geotecnia, monitoramento e tecnologia é hoje essencial para a construção de cidades mais resilientes e empreendimentos mais seguros”, afirma.
Segundo Maria Giovana, essas tecnologias permitem compreender melhor o comportamento dos terrenos, identificar áreas de risco e antecipar situações de perigo, fortalecendo a tomada de decisão tanto no setor público quanto privado.
Entretanto, ela alerta para um desafio importante: o acesso desigual às tecnologias de monitoramento.
Enquanto grandes empresas conseguem investir em sistemas avançados, muitos municípios ainda enfrentam limitações técnicas e financeiras para acompanhar áreas de risco com a mesma eficiência.
Inteligência artificial aplicada à geotecnia
Outro tema que vem ganhando espaço na engenharia geotécnica é o uso da inteligência artificial e da análise de dados.
Para a professora, a IA representa uma ferramenta importante no processamento e interpretação de grandes volumes de informações, além de contribuir para sistemas de monitoramento e alerta.
“A inteligência artificial é uma ferramenta que veio para ficar, e é fundamental fazer um uso responsável e qualificado dela”, ressalta.
Apesar dos avanços tecnológicos, ela reforça que a interpretação técnica continua sendo indispensável.
“No entanto, a tecnologia não substitui a capacitação e a experiência dos profissionais responsáveis por operar, interpretar e validar os dados processados pela inteligência artificial”, explica.
Segundo a pesquisadora, análise crítica, conhecimento técnico e compreensão do território seguem sendo fundamentais para evitar interpretações equivocadas e garantir decisões seguras.
Tecnologia, ética e responsabilidade social
Ao refletir sobre a evolução da Geologia aplicada à Engenharia Geotécnica, Maria Giovana destaca que os avanços tecnológicos foram significativos nas últimas décadas.
Softwares especializados, modelagens geológicas e geotécnicas, monitoramento e inteligência artificial transformaram a capacidade de investigação e análise dos terrenos.
Mesmo assim, ela ressalta que grandes desastres ambientais e tecnológicos continuam acontecendo.
“Isso mostra que o principal avanço necessário talvez não seja apenas tecnológico, mas também ético”, afirma.
Para a professora, é fundamental fortalecer a responsabilidade social, a consciência ambiental e o compromisso ético na utilização dessas tecnologias.
Formação técnica e o futuro da geologia aplicada
A experiência na academia também influenciou sua visão sobre os desafios da profissão e a formação de novos profissionais.
Segundo Maria Giovana, é necessário formar profissionais com sólida base técnica e capacidade de acompanhar as constantes transformações tecnológicas da área.
Entretanto, ela destaca que o conhecimento técnico precisa caminhar junto da consciência sobre o impacto social das decisões tomadas na engenharia.
“Mais do que dominar tecnologias e métodos, é fundamental formar pessoas comprometidas com a segurança da população, a preservação ambiental e a construção de territórios mais resilientes”, falou a professora sobre o futuro da geotecnia, mudanças climáticas e transformações climáticas.
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