O barato pode custar milhões: quando economizar na investigação geotécnica deixa de ser economia

Existe uma realidade que todos os profissionais que atuam na mineração conhecem, mas que raramente é discutida de forma aberta: frequentemente, as investigações geotécnicas são contratadas como se fossem uma commodity.

Na prática, muitos processos de contratação acabam privilegiando quase exclusivamente o menor preço, partindo da premissa de que uma sondagem executada por um fornecedor qualquer produzirá, essencialmente, o mesmo resultado que outra realizada por uma empresa altamente especializada.

Essa premissa é confortável. Mas ela está errada. E pode custar muito caro.

O paradoxo da investigação geotécnica

É curioso observar que praticamente nenhuma mineradora aceitaria comprar uma escavadeira, um caminhão fora de estrada ou um sistema completo de beneficiamento de minérios considerando apenas o menor preço. Todos compreendem que equipamentos, estruturas e processos críticos exigem qualidade, confiabilidade e desempenho. Entretanto, justamente na etapa que gera todas as informações que irão fundamentar essas decisões, ainda existe uma tendência de enxergar a investigação geotécnica apenas como um custo a ser reduzido.

Esse é um paradoxo. A investigação de campo não é apenas mais uma etapa do projeto. Ela é a origem dos dados sobre os quais todo o restante será construído. Se os dados de entrada são ruins, nenhuma metodologia de cálculo, nenhum software sofisticado e nenhum projetista experiente consegue produzir um projeto verdadeiramente confiável.

Existe um princípio clássico da engenharia de dados conhecido como Garbage In, Garbage Out (GIGO): dados ruins inevitavelmente produzem resultados ruins.

Na geotecnia, isso é ainda mais verdadeiro. Não existe projeto melhor que seus dados. Toda decisão de engenharia depende de informação. Perfil estratigráfico, SPT, nível d’água, resistência do maciço, recuperação de testemunhos, RQD, permeabilidade etc.

Cada um desses parâmetros influencia diretamente decisões sobre: fundações, estabilidade de taludes, barragens e pilhas de estéril, estruturas industriais, obras subterrâneas, drenagem, escavações, contenções, dentre outros tipos de obras.

Quando esses dados possuem baixa confiabilidade, toda a cadeia seguinte passa a operar sobre incertezas. E incertezas custam (muito) dinheiro.

O custo invisível de uma sondagem ruim

O problema é que a diferença entre uma boa investigação e uma investigação mal executada dificilmente aparece na planilha de contratação. Ela aparece meses, ou até anos depois.

Ela aparece quando um projeto precisa ser refeito. Quando uma fundação muda. Quando surge um aditivo milionário. Quando um cronograma atrasa. Quando um equipamento precisa ser remobilizado. Quando uma pilha apresenta deformações inesperadas. Quando uma barragem exige novas campanhas de investigação. Quando uma escavação encontra condições completamente diferentes daquelas previstas. Ou, no pior cenário, quando ocorre uma ruptura.

Em praticamente todos esses casos, o custo adicional supera, em múltiplas ordens de grandeza, qualquer economia obtida na contratação da sondagem. É uma economia que existe apenas no papel.

A investigação representa uma parcela mínima do investimento

Existe outro aspecto que merece reflexão. Em praticamente qualquer grande empreendimento de mineração, as investigações geotécnicas representam uma fração muito pequena do investimento total. Dependendo do porte do projeto, é comum que toda a campanha de investigação represente menos de 5% do custo global de engenharia. Em muitos casos, menos do que isso.

Estamos falando da etapa responsável por reduzir as maiores incertezas técnicas do empreendimento consumindo uma parcela mínima do orçamento. Ainda assim, frequentemente é justamente essa etapa que sofre maior pressão para redução de preço.

É como economizar na realização dos exames antes de uma cirurgia extremamente complexa. Os exames são baratos quando comparados ao procedimento. Mas seus resultados são fundamentais para que a cirurgia seja bem executada.

Nem toda sondagem gera informação de qualidade

Existe uma percepção equivocada de que sondagem é simplesmente “abrir um furo”. Não é. Executar uma investigação geotécnica exige controle permanente. Controle de verticalidade, da energia aplicada, da limpeza do furo, da recuperação do testemunho, da calibração dos equipamentos, do treinamento das equipes, da padronização operacional, da rastreabilidade da informação e  da gestão da qualidade.

Cada uma dessas etapas interfere diretamente na confiabilidade do dado produzido. Dois furos executados na mesma coordenada podem produzir informações completamente diferentes dependendo da qualidade da execução. Isso significa que o produto entregue por uma empresa especializada não é simplesmente um furo no solo. É um conjunto de dados cuja confiabilidade foi construída ao longo de todo o processo operacional.

Qualidade custa. Não qualidade custa muito mais.

É natural que uma operação altamente controlada possua um custo operacional superior.

Treinamento permanente. Supervisão técnica. Controle de qualidade. Padronização. Instrumentação calibrada. Manutenção preventiva. Auditorias. Engenharia de apoio.

Tudo isso possui custo. Mas esses custos existem justamente para reduzir riscos. Na engenharia, risco nunca desaparece. Ele apenas muda de lugar. Quando se economiza excessivamente na investigação, o risco não deixa de existir. Ele apenas é transferido para o projeto, para a obra, para a operação e, em última instância, para o próprio cliente.

A falsa economia

Imagine duas propostas. A primeira custa R$ X. A segunda custa R$ 1,3 X. À primeira vista, a escolha parece simples. Mas agora considere que a diferença representa apenas alguns décimos percentuais do custo total do empreendimento.

Em contrapartida, basta uma única informação incorreta para provocar:

  • uma campanha complementar;
  • uma alteração de fundações;
  • uma paralisação de obra;
  • um retrabalho de projeto;
  • um atraso no cronograma.

Nesse instante, toda a economia desaparece. Na verdade, transforma-se em prejuízo. É um clássico caso em que reduzir custo aumenta despesa.

O verdadeiro produto da investigação geotécnica

Talvez esteja na hora de mudarmos a forma como enxergamos nosso próprio setor. Nós não vendemos metros perfurados. Não vendemos horas de equipamento. Não vendemos sondas.

Vendemos redução de incerteza. Vendemos confiabilidade. Vendemos informação técnica capaz de suportar decisões que envolvem investimentos de centenas de milhões (ou até bilhões) de reais.

Quando olhamos por essa perspectiva, a discussão deixa de ser “quanto custa a sondagem”. A pergunta correta passa a ser: Quanto custa tomar uma decisão baseada em dados que não merecem confiança?

A responsabilidade compartilhada

Esse debate não é uma crítica às áreas de suprimentos. Elas cumprem um papel essencial na busca por eficiência e competitividade. Tampouco se trata de defender que preço seja irrelevante. Em qualquer organização, a disciplina financeira é indispensável.

O ponto é outro: quando o objeto contratado é uma investigação geotécnica, o menor preço só faz sentido se estiver associado à mesma capacidade de entregar dados confiáveis. Se a comparação considera apenas o valor da proposta, desconsiderando controles operacionais, qualificação das equipes, gestão da qualidade, rastreabilidade e histórico de desempenho, corre-se o risco de comparar produtos que, na prática, não são equivalentes.

A decisão de contratação precisa refletir o impacto que aqueles dados terão ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento.

Uma mudança de perspectiva

A engenharia evoluiu porque aprendeu, ao longo das décadas, que prevenção quase sempre custa menos do que correção. A investigação geotécnica é uma das maiores expressões desse princípio. Ela reduz incertezas antes que elas se transformem em problemas. Ela permite decisões mais seguras, evita desperdícios, protege cronogramas, preserva investimentos e aumenta a segurança das pessoas e das operações.

Talvez o momento seja justamente de inverter a lógica. Em vez de perguntar quanto custa uma investigação geotécnica de qualidade, deveríamos perguntar quanto custa renunciar a ela. Tenho convicção de que, na grande maioria dos casos, a resposta será a mesma: muito mais do que imaginamos.

Giovani Costa – Líder da area das Investigações Geotécnicas de Campo na Chammas Engenharia.

 

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