TARP na gestão de rejeitos: quando o monitoramento geotécnico exige governança de decisão

TARP na gestão de rejeitos
TARP na gestão de rejeitos

O TARP na gestão de rejeitos tornou-se um elemento central no cenário atual do monitoramento geotécnico. O volume de dados gerados nas estruturas de disposição de rejeitos nunca foi tão elevado, e a capacidade de medir evoluiu em ritmo mais acelerado que a governança da decisão.

Esse aumento da instrumentação trouxe um efeito direto para a gestão de riscos em barragens e pilhas de rejeitos: a complexidade da decisão cresceu na mesma proporção dos dados disponíveis.

Estruturas de disposição de rejeitos não são sistemas estáticos. Evoluem com o alteamento, com o balanço hídrico, com a drenagem interna e com a própria dinâmica operacional. Projetar continua sendo essencial, mas, no contexto atual, observar o comportamento real e transformar sinais de monitoramento em respostas estruturadas tornou-se determinante.

É nesse cenário que o Trigger Action Response Plan (TARP) assume papel central na gestão de riscos e na gestão de rejeitos. É assim que ele deixa de ser um anexo técnico e passa a ocupar posição central como mecanismo de governança, conectando dados, controles críticos e tomada de decisão operacional.

Como o TARP na gestão de rejeitos estrutura a decisão operacional

O TARP estabelece níveis de alerta previamente definidos e associa cada faixa de comportamento a ações claras, escalonadas e rastreáveis. Ele transforma um dado técnico em um processo decisório estruturado.

Mas, segundo Claudinei Cruz, profissional Certificado em Gestão de Riscos, pela ISO 31.000; doutorando na USP, em Engenharia Mineral – Gestão de Risco; e mestre em Gestão de Risco Geotécnico e desastre Naturais na NUGEO/UFOP, o maior equívoco é tratar o TARP como uma simples tabela de alarmes.

“Vejo muitos TARPs tecnicamente bem desenhados, com indicadores e faixas de alerta coerentes, mas que falham porque deixam dúvidas sobre quem decide, quem autoriza, quem executa e em quanto tempo”, afirma.

Na prática, o problema raramente está apenas na definição do limiar técnico. O ponto crítico costuma ser a governança da resposta.

Sem clareza de autoridade, sem critérios objetivos para restrição ou pausa operacional e sem escalonamento definido, mesmo um gatilho tecnicamente correto perde efetividade.

Claudinei Cruz, profissional Certificado em Gestão de Riscos, pela ISO 31.000; doutorando na USP, em Engenharia Mineral – Gestão de Risco; e mestre em Gestão de Risco Geotécnico e desastre Naturais na NUGEO/UFOP

TARP na gestão de rejeitos e a integração com o GISTM

O debate sobre TARPs ganhou força com a consolidação do Global Industry Standard on Tailings Management (GISTM), especialmente no que diz respeito ao Princípio 6, que estabelece que estruturas de disposição de rejeitos devem ser planejadas, construídas e operadas para gerir risco ao longo de todo o ciclo de vida, incluindo fechamento e pós-fechamento.

Claudinei é direto ao analisar essa conexão:

“O GISTM coloca no centro a gestão de risco ao longo do ciclo de vida, a clareza de responsabilidades, a eficácia de controles críticos e a prontidão para resposta. O TARP, quando bem implementado, traduz tudo isso para a rotina operacional.”

Isso significa que o TARP precisa estar ancorado em modos de falha críveis e controles críticos claramente definidos. Cada limiar deve ter justificativa técnica e vínculo com um risco específico.

Mais do que um documento, ele precisa funcionar como mecanismo auditável dentro do sistema de gestão.

Mais dados, mas ainda fragmentados

O avanço da instrumentação e do monitoramento contínuo não eliminou um problema estrutural: a fragmentação entre áreas técnicas. Nesse cenário, o desafio atual já não é coletar mais dados, mas transformar dados integrados em diagnóstico, previsão e resposta consistente.

“Em muitas empresas, a maturidade cresceu no monitoramento e na instrumentação, mas a integração efetiva entre geotecnia, geoquímica, operação, meio ambiente e gestão de risco ainda não acompanhou o volume e a velocidade dos dados”, observa Claudinei.

Segundo ele, os dados ainda são produzidos em silos. A interpretação integrada costuma ocorrer apenas em auditorias, comitês ou quando já existe algum sinal de anomalia.

Esse cenário cria dois riscos clássicos:

  • Excesso de informação sem decisão clara.
  • Decisões baseadas em leitura parcial do sistema.

 

O que diferencia um TARP robusto de um TARP meramente formal

Na avaliação do especialista, um TARP robusto possui pelo menos cinco características:

  • está vinculado a modos de falha críveis e controles críticos claros;
  • possui limiares tecnicamente justificados e revisáveis;
  • Define respostas específicas, com responsável, prazo e escalonamento;
  • Gera rastreabilidade completa do gatilho à ação executada;
  • Fecha o ciclo de aprendizagem com revisão contínua.

Já o TARP criado apenas para atender formalmente a um requisito costuma apresentar gatilhos genéricos, ações vagas e ausência de evidência de execução. “O que diferencia é se o TARP funciona como um sistema de decisão e controle crítico na rotina, com evidência e rastreabilidade, ou se é apenas um artefato documental”, explica o professor Claudinei.

Tecnologia, regulação e cultura: como buscar a próxima evolução?

A evolução da gestão de rejeitos envolve tecnologia, fortalecimento regulatório e cultura organizacional. Mas a ordem importa. “Tecnologia acelera, regulação direciona, mas é a cultura organizacional e a governança que determinam se o risco vai ser realmente gerido no dia a dia”, afirma Claudinei.

Painéis sofisticados e modelos preditivos não substituem disciplina operacional e autoridade clara para agir. Quando a organização trata rejeitos como risco estratégico, reforça responsabilidade técnica, define papéis e garante execução real dos controles críticos e dos TARPs, a gestão deixa de ser reativa e passa a ser estruturada.

 

Dados e tempo de resposta

O fortalecimento do TARP na gestão de rejeitos representa a consolidação de uma governança baseada em dados, controles críticos e resposta estruturada. À medida que exigências regulatórias e padrões internacionais reforçam a necessidade de controles verificáveis e evidências documentadas, os TARPs deixam de ser anexos técnicos.

Consolidam-se como instrumentos de governança operacional.

1 – Eles organizam o tempo de resposta.
2 – Reduzem a ambiguidade decisória.
3 – Transformam monitoramento em ação rastreável.

Até porque, mais do que medir, os dados devem estruturar decisões.

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